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"a vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada."
Guimarães Rosa

04/03/2010 - 16:20:21hs

Prótese de alto padrão ganha espaço

Para muitos portadores de necessidades especiais, dizer que há um longo caminho para a recuperação não é figura de linguagem. Boa parte dos equipamentos usados por essas pessoas são fabricados a centenas de milhares de quilômetros dos lugares onde vivem e só chegam ao país via importação.
 
Mas esse cenário pode mudar rapidamente nos próximos meses. Atraídas pelos bons resultados obtidos no país, grandes companhias do setor estão avaliando a oportunidade de expandir seus negócios locais, o que inclui planos para transformar o Brasil em base de produção.
 
É o caso da alemã Otto Bock. Líder mundial no mercado de próteses, com faturamento anual próximo a € 500 milhões (US$ 675 milhões), a companhia negocia a compra de empresas no país. Sua principal concorrente, a islandesa Össur, dona de um faturamento mundial de US$ 370 milhões, também prevê uma expansão significativa de seus negócios no Brasil neste ano.
 
Na semana passada, o presidente da Otto Bock, Hans Georg Näder, esteve no país para avaliar companhias que tenham negócios correlatos à sua atividade para aquisição. Para ir às compras, a Otto Bock reservou €40 milhões (US$ 54 milhões) de sua receita. "O Brasil é nossa prioridade no processo de expansão na América Latina", ressalta Näder.
 
O executivo observa que em torno de 1,5 milhão de pessoas no país possuem alguma deficiência física, sendo 500 mil com algum tipo de amputação (perna, braço, mão, pé ou dedo polegar), mas só recentemente a procura por tecnologias de ajuda de alto padrão aumentou. "O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ao longo da década pode ter contribuído para o aumento da renda da população e, consequentemente, a procura por modelos de próteses mais modernas também está maior", afirma.
 
De acordo com o presidente regional da Otto Bock para América Latina, Wilson Zampini, as vendas de próteses no Brasil geraram uma receita próxima a € 30 milhões (US$ 40,5 milhões) no ano passado e a expectativa da empresa é dobrar esse valor no prazo de cinco a dez anos. A companhia mantém uma unidade em Campinas, focada em vendas, no treinamento de instituições de reabilitação física e na manutenção dos produtos.
 
As próteses são fabricadas na Alemanha e enviadas sob encomenda para o Brasil. Os principais clientes são o governo federal, que fornece próteses mais simples por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), e instituições privadas, como a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e o Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas, vinculado à Universidade de São Paulo (USP). "As instituições são instruídas para a colocação das próteses e o trabalho de adaptação dos usuários", observa Zampini.
 
No processo de expansão dos negócios, a empresa estuda não só aquisições, mas também a instalação de uma unidade para fabricar as próteses no Brasil. "É a economia que cresce mais rapidamente na América Latina e seu mercado de tecnologia [de apoio a portadores de deficiência física] tem grande potencial de expansão", afirma Näder. Se o próximo governo mantiver o mesmo ritmo de crescimento, o caminho natural será a instalação de uma fábrica no país, que fornecerá próteses também para a América Latina, acrescenta o executivo.
 
A principal concorrente da Otto Bock , a companhia islandesa Össur, também demonstra otimismo em relação ao mercado brasileiro. Em 2007, a empresa decidiu ampliar sua participação no mercado e criou uma divisão de vendas para América Latina, com sede em Porto Alegre. Entre 2007 e 2009, as vendas da empresa na região cresceram 250%, lideradas pelo mercado brasileiro, afirma o presidente da Össur, Jon Sigurdsson. "Os mercados emergentes crescem acima da média mundial e o Brasil tem posição de liderança nesse processo", afirma o executivo.
 
De acordo com Sigurdsson, Argentina, Chile, Colômbia e México também têm crescido acima da média global, razão pela qual a América Latina tornou-se um mercado atraente para as companhias do setor. O segmento vai crescer globalmente de 3% a 5% no ano, enquanto a América Latina pode quase dobrar de tamanho, mantendo o ritmo de expansão entre 2010 e 2012, prevê o executivo.
 
Hoje, informa Sigurdsson, as Américas (incluindo Estados Unidos e Canadá) representam 48% da receita total da Össur, uma participação semelhante à da Europa. Sigurdsson não prevê aquisições para este ano. No período de 2007 a 2009, a empresa adquiriu 14 companhias em diferentes países.
 
No Brasil não há dados consolidados sobre a receita movimentada pelo setor. O Ministério da Saúde prevê concluir, em maio, um estudo sobre o segmento em 2009. De acordo com informações do Instituto de Tecnologia Assistiva (ITS), existem no país 24,6 milhões de pessoas com pelo menos um tipo de deficiência - visual (67,6% dessa população), motora (32,3%), auditiva (23,3%), mental (11,6%) e física (5,8%). Não há dados, porém, sobre a parcela que já dispõe de próteses ou órteses.
 
Até 2008, foram desenvolvidos 243 projetos voltados à área e 123 patentes foram obtidas, mas apenas oito produtos chegaram à fase de protótipo. O mercado é caracterizado pelas importações e o custo das próteses é alto. Mesmo um equipamento simples não sai por menos de R$ 5 mil.

Valor Econômico

03/03/2010

 
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