Um deles voou direto de Belo Horizonte. Uma tinha acabado de chegar da Suíça, onde participou de uma reunião para implementar um projeto de transparência nas próximas eleições brasileiras. Outro se prepara para levar sua ferramenta – que nasceu meio “sem querer” – para a prefeitura de São Paulo. O outro, empolgado, aproveitava cada pose da foto (essa que você vê acima) para fazer referências a seu recém-criado movimento: #webcidadania. Juntos, eles – e mais outros que não conseguiram parar na tarde da quinta-feira para a foto – estão construindo, por meio da web, maneiras audaciosas, lúdicas e criativas de levar para a política o que a sociedade já aprendeu com a web 2.0.
“Nossas necessidades não estão refletidas em lugar nenhum. Tudo é feito a partir de representação. É uma lógica só de cima para baixo. Precisamos criar uma lógica de baixo para cima”, disse Rodrigo Bandeira ao Link. Seu site, Cidade Democrática, permite que as pessoas deem suas opiniões e criem uma rede de discussões ao redor dos problemas da cidade em que vivem. E agora, ele articula o #webcidadania, movimento para reunir todas as pessoas que têm ideias parecidas.
Uma delas é o Adote um Vereador, iniciativa nascida em São Paulo. Nela, pessoas comuns acompanham o trabalho de um político durante um tempo – criam um blog e abastecem um wiki com os passos do trabalho legislativo. “O brasileiro ainda vê política apenas como voto. Mas é um processo contínuo, de quatro anos”, diz Everton Alvarenga, ativista e responsável pela plataforma wiki do projeto.
Exemplo: você sabe o que é que os deputados apresentam na Câmara? Os projetos de lei estão disponíveis no site da Câmara, mas estão escritos – na maioria das vezes – de forma burocrática e de difícil acesso. O Vote na Web, projeto da empresa Webcitizen, busca simplificar a votação que acontece na Câmara para que os próprios cidadãos opinem. “Estamos acostumados a criticar. Saímos da ditadura, não podia falar; depois podia dizer tudo, todo mundo reclama. Agora eu acho que é hora de pensar no que nós podemos fazer”, diz Fernando Barreto, fundador da Webcitizen.
No Brasil, a maior dificuldade para criar um projeto desse tipo é a falta de acesso aos dados públicos. O Vote na Web usou uma base de dados que é aberta – os projetos de lei da Câmara –, mas não há como criar ferramentas com base em outros dados do governo. Nos EUA e na Inglaterra, por exemplo, existem sites governamentais que disponibilizam indicadores de todos os tipos para que desenvolvedores criem aplicativos. Aqui não. Lá, iniciativas civis de participação popular na política já são bem conhecidas, como o MySociety ou o They Work for You. “O obstáculo em relação a esses países é que não temos tanta informação quanto eles”, diz Alvarenga.
O pessoal do site Transparência HackDay está tentando contornar essa realidade. Daniela Silva (que acabou de chegar de viagem da Suíça) e Pedro Markun tiveram a ideia de reunir pessoas que estavam dispostas a transformar dados do governo em iniciativas concretas. Em um dos encontros, surgiu uma ideia meio por acaso: o desenvolvedor Bruno Barreto pegou os dados de reclamação enviados à Prefeitura de São Paulo para montar um ranking com um mapa. Deu tão certo que o serviço será incorporado pelo governo. Além disso, a lista de discussão criada por eles já conseguiu incorporar pontos importantes para o PL 219-2003, que legisla sobre o acesso à informação pública. “Colocamos o projeto em discussão e integramos pequenas mudanças”, diz Markun.
Cada uma dessas iniciativas tem uma natureza: são ONGs, empresas ou movimentos informais que agora começam a se articular para unir forças. Rodrigo, Pedro, Fernando e Daniela, por exemplo, vão esta semana para Curitiba, onde participarão da Conferência Internacional sobre Redes Sociais. Rodrigo apresentará o seu #webcidadania, que reunirá algumas dessas iniciativas em uma só plataforma. Será possível, com um login, adotar um vereador, fiscalizar os deputados, opinar sobre os problemas da cidade e o que mais aparecer.
“Estamos sinalizando que nossos projetos são parte de um desejo maior”, diz Rodrigo. Como todos eles disseram, quando se fala em cidadania não há concorrência: todos eles estão buscando o mesmo objetivo.
Desde o pioneiro Voto Consciente, chamado por Daniela como o “avô” de tudo isso, até a Bolsa de Valores Políticos – campanha de uma corretora de ações que faz “compra e venda” de políticos com uma moeda fictícia – todos eles fazem parte de um movimento que está ganhando corpo e começa a chamar a atenção do poder público.
“A dificuldade não acontece por uma má intenção dos governos. Estamos em uma fase de transição”, acredita Fernando Barreto, do Vote na Web. “A partir do momento que você tem acesso à informação que você quer, e não à que está na televisão, esse é um caminho sem volta”, diz ele. “O governo tem que entender que não está compartilhando o poder com as pessoas, mas, sim, responsabilidade. Está dividindo com a sociedade a possibilidade de atuar em conjunto”, diz Markun.
#webcidadania: a reunião
Rodrigo Bandeira está animado. Depois de trabalhar no mercado financeiro, no governo e no terceiro setor, ele decidiu o seu caminho: ser cidadão. Montou um plano de negócios, criou uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) e lançou, no final de 2009, o Cidade Democrática, portal em que pessoas discutem problemas e soluções para as cidades. “Além de você reclamar sobre o que quiser, também pode se aproximar de outras pessoas e formar comunidades”, diz. Bandeira é também o articulador do #webcidadania, projeto que reunirá Cidade Democrática, Adote um Vereador, Vote na Web e Voto Consciente – ONG representada na foto por Henrique Parra Parra. “Somos complementares”, diz Bandeira, explicando que o #webcidadania quer agregar outros projetos. O lançamento oficial será na quinta (11), na CIRS, em Curitiba.
• O Cidade Democrática é uma plataforma de interação política. As pessoas informam a cidade em que vivem e começam a postar.
• O objetivo é fazer que os internautas troquem ideias sobre problemas e possíveis soluções enviando inclusive fotos e vídeos de suas ações.
• Instituições e políticos também podem se cadastrar no serviço – nesse caso, o perfil é validado pela equipe do site.
Democracia de guerrilha
Antes da empresa, surgiu a ação: eles criaram o clone do Blog do Planalto, versão com o mesmo conteúdo do original mas que, ao contrário do oficial, permite comentários. Depois, os jornalistas Pedro Markun e Daniela B. Silva criaram a empresa – Esfera – e, a partir dela, montaram várias ações ligadas a comunicação, web e política – especialmente na ressiginificação de dados do governo. “Não dá para ficar culpando o governo se não nos articularmos para pensar como usar essas coisas para governar melhor e criar novas formas de ação para resolver problemas. A internet dá o poder”, diz Markun. Agora, eles estão particularmente envolvidos na abertura de dados e na transparência política. Daniela foi à Suíça na semana passada, para o Centre for Research of Direct Democracy, implantar um projeto de transparência nas eleições brasileiras.
• O Transparência HackDay – ou #thackday no Twitter – é um encontro de pessoas que estão dispostas a criar aplicativos relacionados a política e cidadania
• Outros países têm dados abertos, mas não têm desenvolvedores para trabalhar com eles. O #thackday quer seguir o caminho contrário.
• Os encontros são abertos e divulgados na internet. Há também uma lista de discussão.
Legislativo no braço
O Vote na Web tem uma proposta muito simples: traduzir o texto rebuscado dos projetos de lei escritos pelos deputados federais e permitir que os internautas votem neles. A ideia, explica Fernando Barreto, da Webcitizen, empresa que idealizou o projeto, é “tentar interferir nos processos e fazer que o jovem saiba como as coisas funcionam”. Para isso, a equipe cadastra e “traduz”, no braço, os projetos de lei apresentados pelos deputados – são cerca de quatro mil por ano. Aos poucos, eles estão vendo se os projetos refletem a opinião da sociedade e mais: estão jogando luz sobre propostas esdrúxulas e eleitoreiras. Alguns políticos até já reclamaram, mas Barreto se defende: “as informações estão disponíveis, não estamos inventando nada. Só organizando de uma outra forma.”
• O Vote na Web é uma ferramenta simples para votar nos projetos de lei apresentados pelos deputados: apenas “sim” ou “não”.
• O site também cria gráficos com a aprovação do projeto por Estado. Curiosidade: o Nordeste aprova mais; o Sudeste declina mais.
• A equipe cadastrou o último projeto apresentado por cada deputado e também apresenta e “traduz” os PLs do dia. O plano é fazer isso com 22 mil projetos apresentados desde 2001.
Aceito na Prefeitura
“Foi um acidente”, define o desenvolvedor Bruno Barreto sobre o seu SacSP. A ideia surgiu em um #hackday. Ele pegou os índices de reclamação da população paulistana, fez um mashup com Google Maps e criou um índice fácil e simples para entender e categorizar os principais problemas de São Paulo. Deu certo: após uma reunião com a Prefeitura, a Prodam vai incorporar o SacSP.
• O SacSP reúne as reclamações e as categoriza: por tipo (árvores, barulho, lixo, etc.), data e região. Os dados estão sempre atualizados
Reclame e seja ouvido
A ideia do Urbanias, define o criador Ricardo Joseph, é ser um “Reclame aqui” dos órgãos públicos. “Ao enxergar as reclamações, as pessoas veem se o governo está sendo eficiente”, explica. Depois de cadastradas, as demandas da população são enviadas para os órgão correspondentes. “Nós conhecemos os assessores e estamos começando ter um conhecimento de como são esses problemas”, diz Joseph.
• As reclamações são feitas através de um cadastro ou pelo Facebook. É possível enviar fotos ou vídeos. As demandas ficam em um mapa do Google Maps.
Fonte: O Estado de S. Paulo (Caderno Link)
Por :Tatiana de Mello Dias